Saturday, April 09, 2005

La Vie En Rose

Meu deus, onde foi que deixei minha vida?
Parece ter sumido com meus brinquedos
Através do buraco negro por onde foi minha infância...
Talvez tenha escorrido dos meus olhos,
Rolado pelo meu rosto
E encharcado a fronha,
Junto com lágrimas de raiva da pré-adolescência...
Nas casas dos amigos
Cobertos pela poeira do tempo?

Onde foi que me perdi de mim?
Nos banheiros, desesperado, tentando me recompor
Para retornar à mesa e aos amigos?
Nas pontas atiradas pelas janelas
Dos carros nas estradas?
Nos copos de vodca?
No sexo? Nas drogas? No rock'n'roll?

Quando foi exatamente que minha vida se obscureceu?
Depois de que reunião? Em que aparelho?
Depois de qual beijo?
Em que sessão de psicanálise
Exorcizando amores fracassados?
Em que medo sentido?

Quando, diabos, deixei de existir
Para tornar-me esfinge de mim mesmo
E devorar-me
Autofagicamente?

18 comments:

lady_bug_falling_star said...

Olá Ricardo!
Adorei este,como sempre.Adorei todos.Eu tenho visitado,mas nem sempre consigo comentar.
Quanto a escrever,estou esperando ter muitos escritos dignos de serem postados...RS...ás vezes,autocrítica é bom né?!
Beijoks!

Luciane Pelagio said...

O desespero de não saber onde se deixou de existir, precisa ser superado diariamente pelo desejo de descobrir por onde recomeçar...!
Lindo poema, Ricardo!
bjs.

Fabiano Morais said...

belo poema proustiano, ricardo. me lembrou um trecho do conto "os mortos", do joyce: "um por um estavam todos transformando-se em sombras. seria melhor precipitar-se na morte no apogeu de uma paixão, do que extinguir-se e murchar lentamente com a velhice.", que depois seria parafraseado por neil young... ...como você vê, está em boa companhia...

Anonymous said...

Belissimo post......
Sinto que vc é um apaixonado heim..rs

bjao

http://anjinha.betiza.zip.net

Neysi said...

E o que é mesmo essa vida que vamos deixando por aí? Sei lá...
Beijo, bom domingo

Leila said...

As portas...
talvez muitas dentro de nós,não?
Espalha-se tudo pelo caminho, é que o asfalto queima os pés vez em quando...
Bjo.

JéSSica said...

me senti perdida lendo. parece até sinto o que sente.
talvez...
não sei.
muito legal a maneira como escreveu. muito legal sentir isso lendo. viajei nas linhas...

abraço!

sandra said...

Ricardo!! Só o título deste poema já me faz valer a pena vir aqui... Os dilemas do ser humano... que se vê perder-se de si mesmo...Muito a filosofar... Beijos!!

Elida Kronig said...

Nossa, tem um monte de poemas novos aqui que eu ainda não tinha visto.
Beijinhos, vou saborear mais um puquinho..rs
Elida

Antonio da Dri said...

Poesia de altíssimo nível, parabéns. Forte abraço e lamento não ter as respostas, mas garanto-lhe ter, sim, as mesmas perguntas...

anniepaul said...

Ricardo,

Brigadão pelo seu "comment" no meu scrapbook e pelo lindo e-card. Adorei!!!! Obrigada pelo seu carinho!

Beijinhos,
Paula.

Immortal X said...

Olá!
Ah que refrescante e simplesmente delicioso passar por aqui e deparar-me com suas palavras bem escritas e sair depois com o resíduo das mesmas a impregnar minha alma... Bjão!

Bob said...

Grande Ricardo!

Esse poema me lembra os seus velhos tempos,dos quais participei um pouquinho...belíssimo em todo o seu desespero e tormenta...
Abração!
P.S.:Que tal um "porre homérico"?

Anonymous said...

Teu poema me toca. Tantas e tantas vezes, nos sentimos assim, multifacetados, perdendo ou deixando para trás, sem percebermos, pedaços de nós, nem sempre recompostos ou resgatados. Mas, mesmo assim, há algo que nos impele a seguir, a recomeçar sempre, mesmo à revelia. E há a poesia, que nos expõe e, ao mesmo tempo, nos resgata.
Meu beijo de carinho, imenso, imenso....

Míriam Monteiro - http://migram.blog.uol.com.br

Anonymous said...

Olá Ricardo, tudo bem? Ihhhhh, qtas vezes esta pergunta é feita por cada um de nós? Não sei o que é a vida, tb se soubesse ñ teria matéria -prima para escrever. Às vezes essa grande confusão q se chama existência me deixa perplexa e inconformada com as inúmeras indagações que me fustigam. Nessa nossa viagem interior, há muitas ruelas, caminhos pedregosos, encruzilhadas e sem muitas respostas. Já tentei muito descobrir o endereço da minha vida, mas estoy já encontrando.Rsrs. Muito lindo o que escreveste. Beijo meu e saudoso. Anne

Mylle said...

todos estamos em processo de auto destruição

Lu Morena said...

engraçado... essa semana escrevi algo mencionando a poeira do tempo... Aliás, se eu tivesse o seu talento, teria escrito esse poema. Pena que sou apenas rascunhos, mas ainda bem que você é sempre arte-final!!

Beijinhos,

sonia queiros said...

Querido amigo, quantas vezes tento me encontrar em um passado muito próximo e me pergunto onde comecei a me perder de mim, mas isso faz parte da maravilha chamada viver e, só você para escrever lindamente sobre essa busca.Te adoro. BEIJOS,BEIJOS.....