Saturday, February 11, 2006

Pequenos Infinitos

Me diz agora o que é que eu faço
desse meu amor
Como é que eu volto pra casa
Se minha casa agora é você
O que eu faço da minha história
e da tua dor
E de todos esses lugares comuns
de poesia pequena
de poeta pequeno
Lugares de tempos incertos
e almas errantes
Que sopram em meus ouvidos
estranhos vôos não autorizados

Sunday, November 20, 2005

Nada que se supõe definitivo se sustenta

Pois é... eu disse que tinha encerrado o blog, mas aqui estou novamente. Não me comprometo com prazos nem regularidade, mas sempre que tiver um poema novo, vou postar. O de hoje é esse:

QUERO-ME EM TI

Quero o meu sorriso em tua boca
E teu pranto em meu olhar
Quero teus conflitos em meu peito
E a pouca paz que houver pra dar

Quero minha alma entre teus dentes
E teu coração em meu pulsar
Quero tua vida ali em frente
E o mais que venha a transmutar

Quero ser teu enquanto houver presente
E o meu há de ser minha vida em teu voar

Vem brincar, menina linda
Deixa teu sol nascer em mim

Sunday, August 21, 2005

Aniversário & Fim de Linha

Amigos do Poesia Residual,

Em 18 de agosto este blog completou um ano de vida. Durante este ano publicamos um poema "novo" a cada sábado. A idéia era fazer do blog um veículo para poemas ainda inéditos, sobretudo para minha produção mais recente. Contudo, as tarefas do dia-a-dia começaram a se acumular, especialmente depois de me tornar aluno de doutorado do Instituto de Letras da UFF. Assim, passei a ter pouquíssimo tempo para escrever poemas novos. Como conseqüência, os últimos poemas postados eram antigos e até já haviam sido publicados em livro. De qualquer forma, acho que o Poesia Residual cumpriu seu papel como blog. Não pretendo atualizá-lo mais. Meus próximos projetos incluem a transformação do Poesia Residual em livro convencional e a criação de um novo blog, agora para textos em prosa. Assim que tiver novidades, avisarei através de um novo post aqui. Até breve e obrigado pelo carinho.
Ricardo Almeida

Saturday, August 13, 2005

Não Nos Julgue Tão Severamente...

Somos filhos de Guernica e Hiroshima,
Somos filhos de Inês de Castro,
Somos filhos de Romeu e Julieta
E dos crimes passionais...

Somos filhos de Hitler, Reagan e Krushov,
Somos filhos da Santa Inquisição,
Somos filhos de Hendrix, Joplin e Lennon
E da falta de amor...

Somos filhos das esquizofrenias, neuroses e paranóias,
Somos filhos da Censura Federal,
Somos filhos dos pais separados
E dos golpes militares...

Somos teus filhos: Deus Pai Celeste!
Planeta Terra, Século XX, Casa do Sol Nascente.

(Este é um poema antigo, do século passado, como se vê. Mas, estranhamente, ainda o acho atual.)

Saturday, August 06, 2005

Tempo Nublado

O tempo está nublado
Já acordou assim
Um tanto nostálgico e entorpecido
Como tivesse tomado uns quantos copos de vodca

Sua nostalgia triste-alegre
Aumenta à medida que a chuva cai
Fina, suave, quase imperceptível
Sumindo como o passado presente

Momento de desespero
Necessidade de suar sangue
No entanto retida
De tanto torpor

A chuva continua sumida
Embora mais intensa

O temporal não desabou
Ficou guardado
Lá dentro
Aparecendo em alguns momentos
Sob diversas formas amorfas

Enfim,
ninguém ligou
ninguém liga
ninguém ligará

Saturday, July 30, 2005

Poema Confissão (para todos os cegos - ilustres ou não)

Que se dane o que possam pensar da poesia
Eu só quero sentir, sentir, sentir

Que se danem a métrica, a rima, a fôrma
E que se dane o ritmo, Manuel Bandeira

Que se dane a estética antropofágica
Eu só quero vomitar meu sentimento

Meu compromisso é com a vida, com a paixão
Eu amo vocês
Poesia é nudez, Ginsberg?
Que se dane o que é a poesia

Eu quero trepar, gozar
E matar o meu amor às cinco horas da manhã

E ainda que vocês não entendam
Eu amo Oswald, Chacal,
Bandeira e coisa e tal

Mas intocável mesmo
Só substantivo abstrato
E calcinha da professora

Morte ao sindicato dos deuses
Eu quero ser livre

Saturday, July 23, 2005

Espreguiçar

De um quarto fechado
Alguém contempla o mundo

Sua visão ultrapassa a fresta da janela entreaberta
Desvia-se das grades de metal
Sobe e pousa num galho de árvore

O Sol arde e queima
No céu

Um de seus raios
Desce, passa por entre as folhas da árvore
Desvia-se das grades de metal
Vence a fresta da janela
E deita-se numa cama
Aquecendo as idéias de seu habitante
Que recolhe sem pressa sua visão

Saturday, July 16, 2005

Poema da Redescoberta

Aprendi que não basta aprender
A ler o escrito nas entrelinhas
E o não-escrito por trás delas.

Para que possamos descobrir
A Essência, que homens mórbidos
Insistem em tentar velar
(Retirar da linha de nossa visão)
É preciso que, de repente,
Desmorone o grande castelo
(Que posto fosse de areia,
Parecia extremamente sólido).

Não basta perceber que o rei está nu
E desmascarar o discurso do poder,
É preciso se perceber nu,
Sentir vergonha, medo, insegurança...
Largar todas as tábuas de salvação,
Abrir mão das certezas,
E replantar, talvez no cimento,
Tudo que era morando
E mofo se tornou.

Ainda que correndo o risco
De não sobreviver.

Saturday, July 09, 2005

Lição

Aprendi a ler nas entrelinhas
(E por trás delas)
A cada novo esbarrão
Em um ponto final.

Mas não espere encontrar nas minhas
Palavras belas
Pois minha intenção
(Se me consente)
É pôr em sua mente
Um ponto de interrogação
- ou não?

Saturday, July 02, 2005

Menino, Comporte-se...

Comporte-se seriamente
Comporte-se de acordo com a moral
Comporte frustrações somente
Sê um débil mental.

Saturday, June 25, 2005

Há Um Poema Em Cada Gota de Sangue

Em tudo que você olha
Em tudo, tudo que você não vê

E tudo que você colhe,
E tudo que morre

E tudo que existe,
E aquilo que você imagina

E em cada segundo da vida há poesia,
Mas a pena se recusa a encher o papel...

Saturday, June 18, 2005

Tchau!

Quando ela foi embora
pensei em tudo,
menos em poesia: Tomei um porre!

E poetizei bêbado as ruas imundas,
Vomitando meu sentimento,
Como pichasse seu nome
nos muros da cidade,
abarrotados de propaganda política...

Saturday, June 11, 2005

POR UM DESESPERO AGRADÁVEL

Eu sou um ladrão de idéias
Como todo bom poeta
Feitor das palavras
Sádico como um chicote
Mudo como uma porta
Impublicável

Eu sou um louco
À procura da vida e do amor
À tua procura
À minha procura

Eu vivo
Eu sinto medo e quero a coragem
A coragem de um herói trágico
A coragem de ser humano

Eu vivo e sobrevivo
Um Napoleão absolutamente anônimo

Saturday, June 04, 2005

Primeiro Poema Erótico

Essa mulher não é mulher,
É peixe, nadando ora contra a corrente
Ora a favor da maré

Essa mulher é misto de bicho carente
E mar que envolve a gente
Entre suas pernas de mulher

E pede um poema
E pede um soneto
E salta do aquário em busca do ar

Mas minha pena
Prefere à rigidez do soneto
O passeio safado
De um poeta tarado
Por suas formas morenas
Claras formas flexíveis
Do seu corpo de mulher

Essa mulher não é mulher,
É peixe...

Saturday, May 28, 2005

Prece

Agora olhe,
Não pra mim,
Se é que 'inda se lembra...

Olhe pra luz
Vulgarmente azulada
De todos os hotéis baratos
Da Praça da Bandeira

E vê que o meu amor, amor
Não valeu nada, não valeu a pena
Ainda que tenha sido infinitamente feliz
Em todas as luzes
Vulgarmente azuladas
De todos os hotéis baratos
De todas as praças da bandeira

E que meu coração ficou a ver navios
A esperar pelas barcas em Paquetá,
A apertar os olhos
Ao ver a escuridão passar,
A ejacular na cama às três da madrugada
E lembrar que o choro também seria uma forma de prazer
Ou vice-versa
Pra nunca mais esquecer

Saturday, May 21, 2005

AINDA AMOR EM VÃO

Por onde você anda,
menina de pele alva?
Pra onde mandar
meu coração te procurar?

Eu continuo confuso,
paradoxal e com olhos apertados,
só que perdi um braço,
não sei bem qual dos dois

Perdi também minha santa e rebelde
inocência
Fiquei mais canalha
pra me preservar

Mas quando a sombra negra
de tua pele alva
vem me visitar
eu não recobro as cores de antigamente,
pelo menos não a melhor delas...

Menina, eu te amo tão profundamente
que nem eu entendo bem

Só sei que ficou um buraco
no meu peito
Só sei que me sinto
vagamente culpado
E tenho uma impressão de nunca mais
na garganta

Saturday, May 14, 2005

De Que Poeta Precisamos

Estou de saco cheio do poeta do significante
Técnica, técnica, técnica
Arte pela arte
Fôrma hipócrita, estrutura oca...

Poetas do significado existem aos montes
Enchendo o inferno
De boas intenções
E o ar de falta de poesia

Quero ser poeta de verdade
Louco visionário, profeta, artesão da luta
Retirando de cada gota de sangue ou suor
A poesia dos signos vivos

Saturday, May 07, 2005

Mais Uma Leve Como Leve Pluma Muito Leve Leve Pousa

Essa mulher é meu delírio
Uma doença, um vírus
Que apaga minha tela
E me deixa ver

Essa mulher é meu sonho freudiano
Mãe, amante e filhinha desamparada
A encher minha mente
De perversões

E se a vida me deu
A essa mulher
Não serei eu a contestar
Os desígnios desse anjo louco,
Torto e solto
Que escreveu a minha mão

Que venha a felicidade
Eu acho que agüento.

Saturday, April 30, 2005

Poema Doce

Doce menina sapeca,
Doce é teu nome,
Menina levada,
Doce de goiaba,
Doce lembrança
Dos tempos de infância
Soltos nas ruas,
Nos quintais suburbanos
Da casa de minha avó.

Doce é teu nome,
Agora mulher,
Mas com um sorriso maroto
No canto da boca.
Riso de menina
Que corre descalça,
Que brinca na rua,
Toma banho de rio
E rouba frutas diversas
Dos quintais alheios.

Doce é teu nome,
Levado, o sorriso,
Doce é a vida,
Vivo é o rio.

Saturday, April 23, 2005

Cortes

Eu sou um aleijado
Asas, faltam-me asas
Alma, falta-me a alma

Eu sou um mutilado
Falta-me o sorriso de criança
Estirpado por algum bisturi

Eu ando apoiado em muletas
E tomo quilos de neosaldina
Pra aliviar a dor

Eu vivo como quem perdeu o coração
Ou, pelo menos, seus batimentos mais simples

Como quem faz hemodiálise
De lembranças...

Eu sou um aleijado
Sonhos, faltam-me os sonhos.