Saturday, July 03, 2010

ROCK AND ROLL

Eu canto
Por que motivo existe
Apaixonado e vingativo
Sou poeta

Eu canto
Porque o inimigo
Agora é parte de mim
Meu caleidoscópio

Eu canto
Porque ainda me resta
Uma festa a dançar
Sou de Olinda

Eu canto
Por que canto que encontro
Outro canto no meu
Claro e evidente

Eu canto
Porque ainda há espaço
Tempo e corpo
Sou poeta

Saturday, June 26, 2010

NEUROLOGIA

Isso,
de se buscar sempre e exatamente o equilíbrio,
ainda vai nos levar
aquém

Thursday, May 06, 2010

Erupções Cutâneas

Sem chance
Sem transe
Sem trança
Nem transa

Sem trama
Sem grana
Sem trema
Nem trena

Sem moira
Sem loira
Sem beira
Nem eira

Sem crash
Sem trash
Sem M.A.S.H.
Nem cash

Sem cancha
Sem ponche
Sem lanche
Nem brunch

Eu vou
Por que não?

Monday, December 14, 2009

De Bússolas e Caminhos

Estava escrito nas estrelas
Mas rasuramos o firmamento
E as marcas vermelhas
Na palma da minha alma
É que agora me servem de guia -
Cinzas trançadas em trilha

Tuesday, December 01, 2009

Da Natureza dos Lobos

Alguns já nascem com defeito de fábrica, amor
É assim que eu sou
E esse sorriso que ilumina tudo
Não é senão o avesso do choro convulsivo sobre o próprio vômito
E é essa a moeda rara que te dou

Tuesday, May 26, 2009

olhos de arco-íris
chapada guimarães
chapa coco
cachaça
leite condensado
onça garota
hipnotizada
híper isadora
duncan interrompida
mergulho e soul

Tuesday, April 07, 2009

Hoje as barcas saem da praia
E vão pro mar, em Salvador
É dia dois de fevereiro
É dia de Iemanjá!
Hoje na praia, em Itacuruçá
A imagem da mãe bonita
Recebe as oferendas de seus filhos.
Iemanjá, que dá e toma
E que quando se aborrece
Custa a perdoar
Iemanjá, de todas as velas
Iemanjá, dos que vêm
E dos que vão pra nunca mais

Monday, March 02, 2009

Hemisférios

Estava escrito nas estrelas
E ainda assim me perdi
Pudera
O céu era outro.

Friday, October 24, 2008

Em Fortaleza, sobre lo mar

(barcas novas?)

A ambigüidade precisa
das palavras
O fluxo estabilizador
das ondas
Trajetórias
de aproximações e afastamentos
Vagas suficientes
para o vago
Vagas o suficiente
para o encontro

Tuesday, September 16, 2008

Peace Of My Heart

Quero abrir meu coração
Pra tudo o que vier
Mostrar aurículas e ventrículos
Esguichar sangue sorridente

Quero você vermelha bebendo
Cada gota do que sou
Entrando em mim assim
Feito ar na traquéia

Tingindo de rosa
A massa cinzenta do meu crânio aberto
Miolos à milanesa
Have just a little piece of my mind, baby

Pra você me devorar
Eu no teu sexo e você no meu
Regurgitando nossa paz turbulenta de paixão,
Quero abrir teu coração

Tuesday, August 19, 2008

Carta da Japuíba

Fica decretado que todos os erros do passado
Ficarão no passado
E os acertos se prolongarão
Até a eternidade

Fica decretado que todo adulto brincará com crianças
Ao menos duas vezes por semana
Devendo essa freqüência ser aumentada
Até que não se possa mais separar o adulto da criança

Fica decretado ainda que a solidariedade
Será o princípio que governará o mundo
E que todo amor ao acabar
Será convertido automaticamente em amizade

Fica decretado por fim que o sexo
Será uma brincadeira feliz entre crianças que cresceram
Sendo os casos omissos resolvidos
Por consulta ao Estatuto do Homem, de Thiago de Mello

Friday, August 15, 2008

Tudo o que eu quero
É tudo
É pedir demais
Sede ao pote
Tudo o que eu quero
É tudo
O que eu quero

Monday, August 11, 2008

Enquanto me for possível
Ser
Em
Quanto
Impossível
Houver
Ou vir
A ser
Enquanto
Vozes
Me vêem
Do que passou
E vêm
Passando
De
Novo.
O que em mim foi
É.

Thursday, July 17, 2008

Janelas
Castanhas
Há tanto
Tanto tempo

Janelas
Abertas
A tanto
Tanto verde

Janelas
Saudade
De tantas
Possibilidades

Janelas
Fechadas
Agora
Pra mim

Tuesday, June 24, 2008

EVOÉ!

Lennon & McCartney
Paulinho da Viola
Tardes de sábado
Papos, cores e sons

Filmes de Woody Allen
Anos Incríveis, Coppola
Chopps amarelinhos
Laços e Porcos com Asas

Circos voadores, celsos e lobos
E o tempo em que eu acreditava
Carmos, marias e cláudias
E Caio Fernando Abreu

Aulas e beijos roubados
Stratford-Upon-Avon
Milagres em que só eu acredito
E o teu sorriso perfeito

E tudo o que eu não digo
Por carência de papel e memória
Cirandas na Costa Verde
E o gosto do teu abraço

A ser continuado...

Wednesday, June 04, 2008

No Ventre da Aranha

Que rede esta em que agora me percebo?
Anti-útero
Onde buscava abrigo

Irresistível

E em meu vôo matei tantos seres
Só pra chegar
Ali onde tudo mudaria

Quieto espero os meses
Nutrindo o que me desfaz
Decompondo-me em lenta gestação

Onde a buceta que me faria de novo menino?
Não há, meu Deus,
Não há!

Monday, June 02, 2008

Canção Familiar

Todo homem é uma puta
Toda mulher canalha
E é bom que seja assim
Crescei e multiplicai-vos

Todo gozo é uma lágrima
Toda dor tem seu gemido
E há limites, meu Deus, limites!
Bem-aventurados os medíocres

Bem-aventurados os que cultivam
Essa felicidade meia-boca
Cerebral

Esse apagamento (apartamento?) de tantos desvios
Essa história reescrita
Com seus mortos no armário

Bem-aventurada seja sua consciência tranqüila
E a suprema alegria
De uma TV sonolenta em tantos longos domingos

Saturday, May 17, 2008

TODOS OS ERROS DO MUNDO

Erre esse e sei lá mais o quê
Meu amor
Eu gostava tanto de você

Saturday, May 10, 2008

Sobre Heróis e Tumbas

Vamos passear no cemitério
Meu amor
Que o dia está lindo
E há tempo a perder

Vamos sentar junto às lápides
Declamar Jim Morrison
Rimbaud e Baudelaire

Vamos fazer pose
E pontificar
Até não mais poder

Que o dia está lindo
E a vida é nada
E há que matar o tempo
Além da TV

Vamos passear no cemitério
Meu amor

Monday, May 05, 2008

ENOUGH IS ENOUGH

Não sei muito
Sei que amo

Tudo o mais é irrelevante
Mesmo a quem amo
Ou se sou amado

Sei que amo
E isso basta

Sunday, May 04, 2008

Futuro

Do que precisas, meu nobre amigo
É do futuro

No passado, já erraste e acertaste demais
Do que precisas, meu nobre amigo
É do futuro

É hora de acertar e errar outra vez
Futuro, futuro

O presente não existe
Intangível
Entre o segundo que se foi
E a expectativa logo frustrada

Futuro, futuro

Do que precisas, meu nobre amigo
É do futuro

Monday, April 28, 2008

Perdas & Danos

A dor de ter perder
Só não é maior que a dor
De me ter perdido

Friday, April 25, 2008

Infantaria

Lá está o regimento de infantaria
Crianças brincando de soldado
Como convém a infantes

Aqui fora o mundo as espera
Sem final feliz

Saturday, April 19, 2008

Sonata para um Homem Bom

(para um grande amigo)

Homens bons são de carne e osso
Também mentem
Também traem
São capazes de atos mesquinhos
E até de inveja

Mas homens bons são bons
Porque generosos
Capazes de enxergar para além de si mesmos
E do ódio
Que por vezes os toma

Homens bons choram no cinema
E sonham
Acima de tudo, sonham
Sonhos de paz
Para além do próprio umbigo

Tuesday, April 15, 2008

Necromancia

Quantas vezes desisti
Outras tantas ressuscitei
Quantas vezes morto-vivo
Em busca de sangue

Tantas vezes eu menti
Quantas tantas renunciei
Tantas vezes insinuei olhares
Em um ante-anti-gozo

Desassossego quieto que
Mora me mim
Gritos que habitam meu olhar
Raramente minha garganta

Esta é plena de pássaros
Melodiosos
Vez por outra desafinados
Com o bico tinto de carmim

Wednesday, April 02, 2008

Portador de Necessidades Espaciais

Se me faltam asas
Me sobra desejo
Se me faltam foguetes
Me sobra tesão

Delírios
Sonhos lindos
Sonhos tortos
Sonhos

Lá vai minha cabeça flutuando rumo ao Sol

Sunday, March 30, 2008

Dia Indeciso

Ê diazinho indeciso
Feito as cordas do meu coração
Ora oitava acima sol alto
Ora a chuva de um mi bordão

Ê coração esquisito
Feito as cordas do meu violão
Insatisfeito com tudo e com todos
Sempre torto de tanta paixão

Da janela da bela cidade
Hospital, cemitério e
Contramão

Da casa que agora é minha
Saudades futuras
De nova ilusão

Tuesday, March 18, 2008

ATÉ A MANHÃ

Deus abençoe os que apostam
Os que arriscam
Os que magoam sem querer magoar
Os que amam demais

Deus abençoe toda malícia inocente
E a ausência de maldade
Toda vontade
Todo desejo

Deus abençoe os que não guardam rancor
E guarde os que tentam
Entender quem não são
Pois deles é a Lua que o amor acende

Wednesday, February 20, 2008

Dias Bipolares

Agora que você descobriu
Que ser feliz não é fácil
Eu desejo a você um amor assim
Real e etéreo
De dias felizes e outros nem tanto
Porque agora você descobriu
Que ser feliz não é fácil
E a vida escorre pelo canto da boca

Sunday, January 13, 2008

Texting

Não é fobia de altura
É a atração do abismo
Estou no meu elemento
A tempestade é o meu elemento
E aqui eu sou feliz

Não é medo da morte
É o tesão do risco
A perda é sina de quem ama
E só assim eu sou
Feliz por ter sido

Não é a certeza da solidão
É a leveza da esperança
E todas as suas toneladas

Wednesday, January 09, 2008

Onde

Em dias como hoje
Caras como eu
Queriam nem ter nascido

Em dias como hoje
Caras como eu
Tentam não escrever
Poemas confessionais

Em dias como hoje
Caras como eu
Queriam ainda
Poder te ligar

Em dias como hoje
Caras como eu
Já não sabem mais

Dias como hoje,
Caras como eu...

Tuesday, January 01, 2008

Friday, November 23, 2007

A QUE SERÁ QUE SE DESTINA?

Entre mortos e os que ainda virão
Existimos
Criamos passados e os projetamos
No futuro

A que será que se destinam?
Nossas pequenas vidas
Com suas pequenas tragédias e
Pequenos milagres
Com sua mediocridade patética
E seus momentos de plenitude

A que será que se destina?
Eu ter amado tanto
Errado tanto
Sofrido e feito sofrer

A que se destinam?
Boas e más intenções
Rigidez cadavérica de princípios
E complacência desmedida
Com os próprios erros

A que será que se destina?
A beleza em cada pequena coisa
E a vergonha revelada
Em um estranho esplendor

A que será que nos destinamos?
A construir pontes?
A cimentar muros?
A pedir perdão um milhão de vezes?
A decepcionar quem entende tudo
E quem não entende nada?
A plantar livro e escrever árvore?
A criar um filho feliz?

Talvez...
Ou talvez apenas a passar
Sem alarde
Pelo único milagre possível

Wednesday, November 14, 2007

PLEADING GUILTY (Good Intentions)

I declare myself guilty
Of loving too much
Of unacceptable love
And of murdering others' love
Towards myself

I declare myself guilty
Of deceiving and lying to myself
Of desrespecting my own feelings
And of making things worse
Whenever I tried to make them right

I accept the charges
That I did kill the hearts
Of others and my own
That I murdered beauty and innocence
In others and myself
That I shamefully killed love
In the name of love

However, I beg not for merce nor redemption
I've been doing my sentence
As quietly as I can
43 years have already been done
And many more are expected to come
And many more are expected to come

Tuesday, November 06, 2007

DOR DE MENINO NESSA HORA

Nem aquilo a que me entrego
Nem alegria de cais de porto
Nem a cor do teu sorriso
Nem a tua boceta nua

Nem as flores do que quis
Nem poemas que não fiz
Nem as árvores desenhadas
Nem o meu cacete duro

Nem casinha nem varanda
Nem teus fogos e artifícios
Nem minha língua na tua
Nem mil beijos de amor

Nada me consola nessa hora,
Nada!
Só dor
Só dor de menino sem razão

Saturday, October 06, 2007

Eu Vi o Dia Amanhecer em Liverpool

Eu vi o dia amanhecer em Liverpool
E o seu olhar estava
No meu olhar
Que já não era mais meu
Mas de um garoto
Grávido de tantos sonhos

Eu vi o dia amanhecer em Liverpool
Fazia sol, ventava frio
E em todo o caminho
Das docas de verdade
Feias e produtivas com seus odores
Até Albert Dock e
Seus encantos de turista
O peito daquele garoto
Estava tão cheio que
O Mersey parecia caber
E não caber nele a um só tempo

Eu vi o dia amanhecer em Liverpool
E já sem idade
Celebrei com o garoto
No novo Cavern
Aos goles, acordes e lágrimas de
Tantos Johns

Eu vi o dia amanhecer em Liverpool
E foi como se a vida,
Dolorosamente bela,
Dançasse pra mim
Uma dança de subúrbio
Do Rio de Janeiro

Eu vi o dia amanhecer em Liverpool

Monday, October 01, 2007

Em Setembro, no Velho Continente

Em setembro, no velho continente
As folhas se vão
No último dia de setembro
No velho continente
O dourado do chão
Esconde perdas irreversíveis
Que os outubros que virão
Não podem curar
Pois estamos no velho continente
E tudo só tende a se perder
Em setembro, no velho continente
No último dia de setembro
No velho continente
Algo de precioso se foi pra sempre de mim

Saturday, September 29, 2007

Tanta Gente

Tanta gente
Diferente
Protegendo a cabeça
Projetando o coração
Tanta gente
Diferente
Tanta gente

Tanta gente
Reluzente
Tantas cores
Tantos trajes
Tanta gente
Diferente
Tanta gente

Tanta gente
Tão igual e diferente
Tão central e periférica
Tantas línguas, tantos beijos
Tanta gente
Diferente
Tanta gente

Saturday, September 22, 2007

O Profeta

E o profeta chegou para espalhar amor
Love is all you need, little darling
Meu amor, ele é demais, nunca é de menos
Amor é pra se dar

E o profeta espalhava amor
Love, love, love
Da cabeça aos pés, sweet darling
Qualquer maneira de amor vale a pena

Mas que amor é esse
Assim só leveza
Amor sancionado é amor pesado
Feito de sombras e argolas

O profeta é o monstro

Peguem o monstro
Queimem o monstro

Wednesday, September 05, 2007

O Monstro

Peguem a bruxa
Queimem a bruxa
Ela ama demais
Não pode
Só pode amar um

Peguem o monstro
Queimem o monstro
Ele ama demais
Não pode
Só pode amar uma

A bruxa se chama amor
O monstro se chama amor
O amor se chama liberdade

Saturday, August 18, 2007

Eu pinto a cara pra você
Dou meu corpo pra você
Decoro versos
E jogo malabares pra você
Mas você não pode ver
Não tem tempo
Está muito ocupado
Pintando a cara para alguém
Dando o seu corpo para alguém
Escrevendo versos
E vendendo seu tempo para alguém
Alguém que não tem rosto
Nem amor nem poesia
Alguém que não é como eu e você

Wednesday, August 08, 2007

gente
é de gente que eu gosto
e que eu preciso
pra poder viver
gente que retribui sorriso
instintivamente
mostrando que de perto
quase ninguém é boçal
nem os arrogantes
nem os crudelissimamente violentos
dados o tempo e o espaço corretos
conseguem suprimir sua humanidade
de gente
gente que cria e recria o mundo
a cada dia
gente de quem em última análise
toda realidade depende
gente piegas como eu
ou esperta como você
gente boa e gente má
não
gente
apenas
gente
há

Thursday, July 19, 2007

o amor é a mais bela das maldições
chave da felicidade
e da infelicidade
se
feito a esperança de bandeira
o amor até acaba
mas sempre tarde demais
pra mim chega
pra mim nunca chega
o amor é essa coisa estranha
onde eu vivo em você
e você
que já não é você
em mim
se
pra mim não chega
nem nunca chegará

Sunday, July 01, 2007

me esforço
por entender
silêncios
que palavras
já não lavram
o canto-ar
me esforço
em evocar
momentos
que serenos
não sabemos
respirar
o canto-ar
projeto
novas pontes
contra muros
parado
arando
o canto-ar
canto de olho
olhos tantos
molho canto
o canto-ar

Friday, June 29, 2007

indignação
indigna ação
inação
in ação
indigna
indigna nação

Wednesday, June 13, 2007

são nove horas
e agora sim eu nasci
na boca tristeza de menino velho
arrancado modernamente do chão
fundador de futuros interrompidos

são nove horas
e agora sim eu nasci
e o vazio de tantas presenças
ameaça rolar do meu rosto
política de afetos

são nove horas
e agora sim eu nasci
você está aqui
onde está você?

são nove horas
e agora sim eu nasci

Wednesday, June 06, 2007

Tudo acaba onde começou
Nada acaba...

Friday, May 04, 2007

BAKHTINIANO

Tudo começou antes de começar
E, particularmente, não acredito em pontos finais

Saturday, April 21, 2007

A CIDADE SAI DE MIM

(para Angra dos Reis)

A cidade sai de mim
Lentamente
Como sangue que escorre
Lento e quente
Do ferimento

A cidade sai de mim
Lentamente
Como lágrima que escorre
Lenta e quente
Do coração

A cidade sai de mim
Rascante
Como amor impotente
Seco e frio
De tristeza

A cidade não sai de mim

Friday, April 13, 2007

FIM DE LINHA

Não leio mais as previsões pro teu signo
No horóscopo do jornal

Nem espero em vão por um comentário teu
Nos poemas do meu blog

Não entupo mais teu celular
Com mensagens desesperadas

Nem te imponho presentes,
Canções ou filmes pirateados

Não te indico mais livros
Nem te empresto os meus

Claramente, se ainda estás viva
Então quem morreu fui eu

Saturday, March 31, 2007

UBUNTU

O único mundo que existe
é o que habita o espaço
dos nossos dedos entrelaçados

Wednesday, March 21, 2007

Eternidade Breve

Ontem teu rosto me veio assim
Feito um sonho bom
Sem remorsos nem esperança
Somente a eternidade do breve instante

Saturday, March 10, 2007

Assassinato

Você não vê
O sangue manchando o teclado
Nem pode adivinhar na tela
Os restos mortais
De tantos sorrisos

Saturday, February 03, 2007

Lembranças do Futuro

Teus azuis ainda estão
em tudo o que ouço

E teu gosto teima em brilhar
em vagas imagens de tanta memória

Nada a fazer
e tudo por ser feito

Pois tudo o que foi feito
ainda está por fazer

Lembranças de futuros possíveis,
estados eternos de vir a ser

Saturday, January 27, 2007

EPPUR SI MUOVE

Não sei o que esse meu coração tem
Que não consegue se aquietar

Alma de artista sem talento
Palma de velas e tormentas

Eu vivo como quem morre
Eu morro como quem nasce

Saturday, January 13, 2007

OUROANA

(Sampleando Saramago)


Ouroana chama-se ela
Em quem não pára de pensar
E se vê-la é tão raro
Qualquer letra vira seu signo
E isso basta para o encontro

Pois só há que temer o fim se ele vier
Antes que possa tocar-lhe o ouro
Ouro que lhe toca
A cada toque de seus ícones

Ouroana, Maria Sara, Anamor
Magia da palavra, do nome, da carne
Ouroana, como te chamas?
Maria Sara, Anamor

Saturday, January 06, 2007

A 4 Mãos

(Humano, Demasiadamente Humano)


Nada estava escrito
No M de nossas palmas
E ainda assim o pudemos ler

Não havia quaisquer sinais
E os plantamos
Em cada esquina

E nas estrelas só se via
O brilho projetado
Emprestado do nosso olhar

Nossa linda, linda história
O destino não a escreveu
Mas por querer o fizemos você e eu

Saturday, December 23, 2006

Pequenos Milagres

Minhas palavras não guardam mistérios
Nenhuma essência por trás do opaco

E, no entanto,
Tentam agarrar milagres

Sentidos que empresto
Ao eterno retorno do teu sorriso

Saturday, December 16, 2006

FALTA

Alma
Ar
Linha da vida
Mão pequena
Dedos finos
Meu sorriso

Palma
Par
Vinho tinto
Pele alva
Lábios vivos
Eu menino

Falta
Faz
E sempre fará
A coragem que não tive

Monday, November 06, 2006

Lugar Comum

O que desejo para nós
É um lugar comum
Nem mais nem menos
Que tempo já não temos

O que desejo para ti
É uma alegria besta
Mesmo com tantos literatos
De quinta e sexta

O que desejo para mim
É fim de comédia romântica
Que pra quem ama
Melhor que Greenaway é um belo drama

O que desejo, enfim
É passeio de mãos dadas
Em quinta ensolarada
Bola colorida e dragão chinês

O que desejo pra vocês
É ver de boa vista
Simples vôo de isopor
Levando meus humores para além do seu pudor

Saturday, November 04, 2006

Anatomia

Ar te faço
E te respiro
Te processo como posso
Enquanto escapas dos meus olhos

Meu olfato denuncia
A perfeição desse teu nome
Cujo toque me remete
Ao colo úmido de Iemanjá

Onde repouso minha mente
E o cansaço de te amar
Me faz de novo semente
De um caminhar imponderável

Saturday, October 07, 2006

Ainda Torto

Escrevo-me e reescrevo-me
em cada verso que sangra surdo
dentro de mim
ou brota líquido do meu olhar
Um poeta não se faz com versos

É o risco de se desconstruir
e reinventar a cada salto
no escuro e sem rede

Pois sobre viver e sobre escrever
de cachorros vivos ou mortos
mais vale a mais valia da ironia

Poesia, vida
Ao que parece não há

Onde a saída?
Pra mim chega!

Sunday, July 09, 2006

Orbitais

Todo amor é para sempre
Ainda que relações acabem
E sejam muitos os amores
Pois todos os amores são para sempre

Todos os encontros são reencontros
Ainda que inaugural seja a fagulha
E único seja o encontro
Pois todo encontro é reencontro

E essa luz que cega e atrai
Não é senão trança
De mil fiapos de brilho

Fiapos de estranhos movimentos
Em que orbitamos uns aos outros
Da gravidade ao infinito

Tuesday, June 13, 2006

Amores Líquidos

Amo-te em todos os meus amores
E todos os meus amores brilham no teu olhar

Todos os gostos que provei
São um
E uno é o beijo que a tantas te dei

Múltiplo entrelace
Pernas, braços e almas
Canto daquilo que nunca se consome
Mas que ama
E cujo único epicentro é o amor
Múltiplo, uno e intenso

Leves sejam nossas almas líquidas
Que transbordam de nós
Por tanto amor

Saturday, February 11, 2006

Pequenos Infinitos

Me diz agora o que é que eu faço
desse meu amor
Como é que eu volto pra casa
Se minha casa agora é você
O que eu faço da minha história
e da tua dor
E de todos esses lugares comuns
de poesia pequena
de poeta pequeno
Lugares de tempos incertos
e almas errantes
Que sopram em meus ouvidos
estranhos vôos não autorizados

Sunday, November 20, 2005

Nada que se supõe definitivo se sustenta

Pois é... eu disse que tinha encerrado o blog, mas aqui estou novamente. Não me comprometo com prazos nem regularidade, mas sempre que tiver um poema novo, vou postar. O de hoje é esse:

QUERO-ME EM TI

Quero o meu sorriso em tua boca
E teu pranto em meu olhar
Quero teus conflitos em meu peito
E a pouca paz que houver pra dar

Quero minha alma entre teus dentes
E teu coração em meu pulsar
Quero tua vida ali em frente
E o mais que venha a transmutar

Quero ser teu enquanto houver presente
E o meu há de ser minha vida em teu voar

Vem brincar, menina linda
Deixa teu sol nascer em mim

Sunday, August 21, 2005

Aniversário & Fim de Linha

Amigos do Poesia Residual,

Em 18 de agosto este blog completou um ano de vida. Durante este ano publicamos um poema "novo" a cada sábado. A idéia era fazer do blog um veículo para poemas ainda inéditos, sobretudo para minha produção mais recente. Contudo, as tarefas do dia-a-dia começaram a se acumular, especialmente depois de me tornar aluno de doutorado do Instituto de Letras da UFF. Assim, passei a ter pouquíssimo tempo para escrever poemas novos. Como conseqüência, os últimos poemas postados eram antigos e até já haviam sido publicados em livro. De qualquer forma, acho que o Poesia Residual cumpriu seu papel como blog. Não pretendo atualizá-lo mais. Meus próximos projetos incluem a transformação do Poesia Residual em livro convencional e a criação de um novo blog, agora para textos em prosa. Assim que tiver novidades, avisarei através de um novo post aqui. Até breve e obrigado pelo carinho.
Ricardo Almeida

Saturday, August 13, 2005

Não Nos Julgue Tão Severamente...

Somos filhos de Guernica e Hiroshima,
Somos filhos de Inês de Castro,
Somos filhos de Romeu e Julieta
E dos crimes passionais...

Somos filhos de Hitler, Reagan e Krushov,
Somos filhos da Santa Inquisição,
Somos filhos de Hendrix, Joplin e Lennon
E da falta de amor...

Somos filhos das esquizofrenias, neuroses e paranóias,
Somos filhos da Censura Federal,
Somos filhos dos pais separados
E dos golpes militares...

Somos teus filhos: Deus Pai Celeste!
Planeta Terra, Século XX, Casa do Sol Nascente.

(Este é um poema antigo, do século passado, como se vê. Mas, estranhamente, ainda o acho atual.)

Saturday, August 06, 2005

Tempo Nublado

O tempo está nublado
Já acordou assim
Um tanto nostálgico e entorpecido
Como tivesse tomado uns quantos copos de vodca

Sua nostalgia triste-alegre
Aumenta à medida que a chuva cai
Fina, suave, quase imperceptível
Sumindo como o passado presente

Momento de desespero
Necessidade de suar sangue
No entanto retida
De tanto torpor

A chuva continua sumida
Embora mais intensa

O temporal não desabou
Ficou guardado
Lá dentro
Aparecendo em alguns momentos
Sob diversas formas amorfas

Enfim,
ninguém ligou
ninguém liga
ninguém ligará

Saturday, July 30, 2005

Poema Confissão (para todos os cegos - ilustres ou não)

Que se dane o que possam pensar da poesia
Eu só quero sentir, sentir, sentir

Que se danem a métrica, a rima, a fôrma
E que se dane o ritmo, Manuel Bandeira

Que se dane a estética antropofágica
Eu só quero vomitar meu sentimento

Meu compromisso é com a vida, com a paixão
Eu amo vocês
Poesia é nudez, Ginsberg?
Que se dane o que é a poesia

Eu quero trepar, gozar
E matar o meu amor às cinco horas da manhã

E ainda que vocês não entendam
Eu amo Oswald, Chacal,
Bandeira e coisa e tal

Mas intocável mesmo
Só substantivo abstrato
E calcinha da professora

Morte ao sindicato dos deuses
Eu quero ser livre

Saturday, July 23, 2005

Espreguiçar

De um quarto fechado
Alguém contempla o mundo

Sua visão ultrapassa a fresta da janela entreaberta
Desvia-se das grades de metal
Sobe e pousa num galho de árvore

O Sol arde e queima
No céu

Um de seus raios
Desce, passa por entre as folhas da árvore
Desvia-se das grades de metal
Vence a fresta da janela
E deita-se numa cama
Aquecendo as idéias de seu habitante
Que recolhe sem pressa sua visão

Saturday, July 16, 2005

Poema da Redescoberta

Aprendi que não basta aprender
A ler o escrito nas entrelinhas
E o não-escrito por trás delas.

Para que possamos descobrir
A Essência, que homens mórbidos
Insistem em tentar velar
(Retirar da linha de nossa visão)
É preciso que, de repente,
Desmorone o grande castelo
(Que posto fosse de areia,
Parecia extremamente sólido).

Não basta perceber que o rei está nu
E desmascarar o discurso do poder,
É preciso se perceber nu,
Sentir vergonha, medo, insegurança...
Largar todas as tábuas de salvação,
Abrir mão das certezas,
E replantar, talvez no cimento,
Tudo que era morando
E mofo se tornou.

Ainda que correndo o risco
De não sobreviver.

Saturday, July 09, 2005

Lição

Aprendi a ler nas entrelinhas
(E por trás delas)
A cada novo esbarrão
Em um ponto final.

Mas não espere encontrar nas minhas
Palavras belas
Pois minha intenção
(Se me consente)
É pôr em sua mente
Um ponto de interrogação
- ou não?

Saturday, July 02, 2005

Menino, Comporte-se...

Comporte-se seriamente
Comporte-se de acordo com a moral
Comporte frustrações somente
Sê um débil mental.

Saturday, June 25, 2005

Há Um Poema Em Cada Gota de Sangue

Em tudo que você olha
Em tudo, tudo que você não vê

E tudo que você colhe,
E tudo que morre

E tudo que existe,
E aquilo que você imagina

E em cada segundo da vida há poesia,
Mas a pena se recusa a encher o papel...

Saturday, June 18, 2005

Tchau!

Quando ela foi embora
pensei em tudo,
menos em poesia: Tomei um porre!

E poetizei bêbado as ruas imundas,
Vomitando meu sentimento,
Como pichasse seu nome
nos muros da cidade,
abarrotados de propaganda política...

Saturday, June 11, 2005

POR UM DESESPERO AGRADÁVEL

Eu sou um ladrão de idéias
Como todo bom poeta
Feitor das palavras
Sádico como um chicote
Mudo como uma porta
Impublicável

Eu sou um louco
À procura da vida e do amor
À tua procura
À minha procura

Eu vivo
Eu sinto medo e quero a coragem
A coragem de um herói trágico
A coragem de ser humano

Eu vivo e sobrevivo
Um Napoleão absolutamente anônimo

Saturday, June 04, 2005

Primeiro Poema Erótico

Essa mulher não é mulher,
É peixe, nadando ora contra a corrente
Ora a favor da maré

Essa mulher é misto de bicho carente
E mar que envolve a gente
Entre suas pernas de mulher

E pede um poema
E pede um soneto
E salta do aquário em busca do ar

Mas minha pena
Prefere à rigidez do soneto
O passeio safado
De um poeta tarado
Por suas formas morenas
Claras formas flexíveis
Do seu corpo de mulher

Essa mulher não é mulher,
É peixe...

Saturday, May 28, 2005

Prece

Agora olhe,
Não pra mim,
Se é que 'inda se lembra...

Olhe pra luz
Vulgarmente azulada
De todos os hotéis baratos
Da Praça da Bandeira

E vê que o meu amor, amor
Não valeu nada, não valeu a pena
Ainda que tenha sido infinitamente feliz
Em todas as luzes
Vulgarmente azuladas
De todos os hotéis baratos
De todas as praças da bandeira

E que meu coração ficou a ver navios
A esperar pelas barcas em Paquetá,
A apertar os olhos
Ao ver a escuridão passar,
A ejacular na cama às três da madrugada
E lembrar que o choro também seria uma forma de prazer
Ou vice-versa
Pra nunca mais esquecer

Saturday, May 21, 2005

AINDA AMOR EM VÃO

Por onde você anda,
menina de pele alva?
Pra onde mandar
meu coração te procurar?

Eu continuo confuso,
paradoxal e com olhos apertados,
só que perdi um braço,
não sei bem qual dos dois

Perdi também minha santa e rebelde
inocência
Fiquei mais canalha
pra me preservar

Mas quando a sombra negra
de tua pele alva
vem me visitar
eu não recobro as cores de antigamente,
pelo menos não a melhor delas...

Menina, eu te amo tão profundamente
que nem eu entendo bem

Só sei que ficou um buraco
no meu peito
Só sei que me sinto
vagamente culpado
E tenho uma impressão de nunca mais
na garganta

Saturday, May 14, 2005

De Que Poeta Precisamos

Estou de saco cheio do poeta do significante
Técnica, técnica, técnica
Arte pela arte
Fôrma hipócrita, estrutura oca...

Poetas do significado existem aos montes
Enchendo o inferno
De boas intenções
E o ar de falta de poesia

Quero ser poeta de verdade
Louco visionário, profeta, artesão da luta
Retirando de cada gota de sangue ou suor
A poesia dos signos vivos

Saturday, May 07, 2005

Mais Uma Leve Como Leve Pluma Muito Leve Leve Pousa

Essa mulher é meu delírio
Uma doença, um vírus
Que apaga minha tela
E me deixa ver

Essa mulher é meu sonho freudiano
Mãe, amante e filhinha desamparada
A encher minha mente
De perversões

E se a vida me deu
A essa mulher
Não serei eu a contestar
Os desígnios desse anjo louco,
Torto e solto
Que escreveu a minha mão

Que venha a felicidade
Eu acho que agüento.

Saturday, April 30, 2005

Poema Doce

Doce menina sapeca,
Doce é teu nome,
Menina levada,
Doce de goiaba,
Doce lembrança
Dos tempos de infância
Soltos nas ruas,
Nos quintais suburbanos
Da casa de minha avó.

Doce é teu nome,
Agora mulher,
Mas com um sorriso maroto
No canto da boca.
Riso de menina
Que corre descalça,
Que brinca na rua,
Toma banho de rio
E rouba frutas diversas
Dos quintais alheios.

Doce é teu nome,
Levado, o sorriso,
Doce é a vida,
Vivo é o rio.

Saturday, April 23, 2005

Cortes

Eu sou um aleijado
Asas, faltam-me asas
Alma, falta-me a alma

Eu sou um mutilado
Falta-me o sorriso de criança
Estirpado por algum bisturi

Eu ando apoiado em muletas
E tomo quilos de neosaldina
Pra aliviar a dor

Eu vivo como quem perdeu o coração
Ou, pelo menos, seus batimentos mais simples

Como quem faz hemodiálise
De lembranças...

Eu sou um aleijado
Sonhos, faltam-me os sonhos.

Saturday, April 16, 2005

A Torquato Neto

São três da madrugada
E meu coração vazio não vale, nunca valeu, nem
Nunca valerá nada

São três da madrugada, Torquato
E eu choro que nem uma boneca vagabunda,
Implorando um pouco de paz...
Um pouco de gás...

São três da madrugada
E ela nunca tomou nota
Do amor que guardei só pra ela
E que secou feito leite estragado

São três da madrugada, bicho
Eu já andei pra caralho
E tô tão cansado
Que cortaria um braço
Pra me sentir mais leve

São três da madrugada, Torquato
E eu rezo a você
Uma reza louca,
Descabelado, desgrenhado,
Babando sangue pelo canto da boca

São três da madrugada
Pobres de nós, Torquato

Saturday, April 09, 2005

La Vie En Rose

Meu deus, onde foi que deixei minha vida?
Parece ter sumido com meus brinquedos
Através do buraco negro por onde foi minha infância...
Talvez tenha escorrido dos meus olhos,
Rolado pelo meu rosto
E encharcado a fronha,
Junto com lágrimas de raiva da pré-adolescência...
Nas casas dos amigos
Cobertos pela poeira do tempo?

Onde foi que me perdi de mim?
Nos banheiros, desesperado, tentando me recompor
Para retornar à mesa e aos amigos?
Nas pontas atiradas pelas janelas
Dos carros nas estradas?
Nos copos de vodca?
No sexo? Nas drogas? No rock'n'roll?

Quando foi exatamente que minha vida se obscureceu?
Depois de que reunião? Em que aparelho?
Depois de qual beijo?
Em que sessão de psicanálise
Exorcizando amores fracassados?
Em que medo sentido?

Quando, diabos, deixei de existir
Para tornar-me esfinge de mim mesmo
E devorar-me
Autofagicamente?

Saturday, April 02, 2005

Remendos do Dia

Queria devolver tua alma
E fingir que nada de teu ficou em mim
Nem esse cansaço de me saber covarde
Nem essa dor de me fazer algoz

Queria devolver tua alegria
E fugir, que nada de meu ficou em ti
Nem esses olhos que te sabem frágil
Nem essas asas que te cortam a carne

Mas o mundo me chama
E o mal está feito...
E nem mil remendos
Consertariam o dia estilhaçado

Saturday, March 26, 2005

Sobre Poemas e Porres

Eu escrevo poemas
Como quem passa mal

Eu procuro seu rosto
Como quem busca a paz

Eu distorço a verdade
Como quem não a quer

Eu tomo porres homéricos
Como um ato de fé

Eu acredito em mentiras
Eu escrevo poemas

Saturday, March 19, 2005

Muros & Pontes

Muros e pontes criamos
Enquantos esperamos

Muros e pontes grafamos
Enquanto passamos

Muros e pontes...
Estranhas construções!

Estranho que só possa pensá-las
Como lados da mesma moeda
Como partes da mesma espera

Muros e pontes vivemos
Enquanto o dia não vem

Saturday, March 12, 2005

Crepúsculos

Entre o real e o possível,
Plenos de sangue,
Lindos sonhos tivemos

Entre a viagem e a guerra,
Prenhes de sentidos,
Longas metáforas vivemos

Entre o desejo e a boca
Um novo tempo estranho
Agora me paraliza

Entre pálpebras e vigília
Uma alma provisória
Inquieta adormece

Saturday, March 05, 2005

Todas as Horas

Eu te amo assim hesitante
Cauteloso
Como quem devesse um dia odiar

Eu te odeio assim hesitante
Receoso
De que um dia devesse te amar

Eu vivo assim hesitante
Temeroso
De que cada esquina esconda o final

Hesitante...
Como quem devesse viver
O amor, o ódio
E as paixões de todas as horas
Comedidamente

Saturday, February 26, 2005

Daqui

Eu escrevo o meu quintal
Minha curva e incerteza

Eu canto o meu amor
Beijos antiframboesa

Eu traço meu rabisco
Nos espinhos desse muro

Eu grafo e solto o grito
Das costas das troças do mundo

Saturday, February 19, 2005

Concêntricos

Menina, eu odeio acrósticos
E nomes
E tudo aquilo que personalize
O que deve apenas partir do pessoal
E, ainda assim, te amo...

E, no entanto,
Apesar de tanto te amar,
Meu amor por ti não importa
Mais que o amor simplesmente
E nem o teu olhar,
Que tanto me cativa,
É importante em si
Senão pelo que revela
Do gênero humano

E tu és apenas o centro de ti
E eu, apenas o centro de mim
E quanto a escrever poemas
Mais valem os múltiplos olhares
Que possas me emprestar

Saturday, February 12, 2005

Riscos & Possibilidades (Dias Perigosos)

[Parris], like the rest of Salem, never conceived that the children were anything but thankful for being permitted to walk straight, eyes slightly lowered, arms at the sides, and mouths shut until bidden to speak.
(Arthur Miller - The Crucible)
A vida é um risco, menino
E você pode falar o que pensa
Desde que todos concordem
+
Nestes dias perigosos
Não há espaço para a poesia
E a sinceridade deve ficar bem escondida
Atrás de lisonjas e sorrisos
+
Menino, comporte-se
Divergir pra quê?
Decore o script
E depois conversamos
+
Amenidades, por favor
Que a palavra agora
Tem uma estranha função
+
Sim, são dias perigosos
Por mais que se diga o contrário...
+
Mas você pode dizer o que quiser
Desde que não seja o que pensa
Desde que seja mais uma voz
No coro da indiferença
+
Ainda que o silêncio pese uma tonelada...

Saturday, February 05, 2005

Danças

Musicais da Broadway
me dão enjôos
Os passos que amo
não são marcados
nem precisam de coro
ao fundo

Os passos que amo
são movimentos espontâneos
de uma dança epiléptica
livre e insegura

Bonecos de mamulengo
que balançam
e tantas vezes caem
Equilibristas bêbados
de uma vida
sem ordem unida

Beijos, tropeços e quedas
Encontros
de corpos indisciplinados
que espontaneamente
se fundem
e movem-se atabalhoados
emprestando beleza
a estranhos espasmos
descoreografados

Saturday, January 29, 2005

Canção Desconfiada

Desconfie de certezas
Nada é
Nem se parece
E tudo que é sórdido
Se esconde no ar

Desconfie de fronteiras
A areia não termina
Onde começa a água
E eu não termino
Onde você começa
Se você me faz

E desconfie de quem ama
Não porque não ame
Mas porque amar
É perigosamente
Diluir as bordas
De certezas e fronteiras

Mas sobretudo desconfie de poetas desconfiados
Que desconfiam de tudo
Até mesmo de versinhos
Romanticamente sorridentes
E de poemas incertos
Que amam desfronteiras

Saturday, January 22, 2005

Múltiplos

Quero-te
Simples
Como quem ama

Quero-te
Múltipla
Como és
E estilhaçado
Como sou

Quero-te
Inteira
Pela metade
E com a melhor face
Que te dou

Quero te dar
Todos meus amores
Quero provar
Todos teus sabores

Exclusivos somos
Do mundo que somos
E dos outros
Que nos fazem
Seus construtores

Quero-te leve
E dou-me mosaico
Do mundo que somos

Do mundo que somos
Somos daqueles
Que assim desejaram
Nos reinventar

E conjugamos
De múltiplas formas
Novas e leves
Uma estranha essência
Sempre um tanto avessa
A se cristalizar

Saturday, January 15, 2005

Poema Incerto

Certos poemas
São polígonos
Outros
Linhas poligonais
Abertas
Certos poemas...

Em certos poemas
Encerro o óbvio enigma

Incertos poemas
Tão óbvios
Quanto a alma
Do poeta
Tão enigmáticos
Quanto
Seus segredos...

O resto é prosa

Saturday, January 08, 2005

Inventário em Preto e Branco

Tenho um pequeno caderno vermelho
Onde guardo pequenas gotas do que fui

Trago um olhar azul de cachorro
Triste e um tanto melancólico
Que às vezes vira um sorriso castanho de filhote

Possuo quartos brancos numerados
Onde és bem vinda a qualquer hora

E gavetas grafite bem trancadas
Em que acumulo dores incolores
E cultivo almas transparentes

Saturday, January 01, 2005

Poesia Residual

Não consigo escrever poemas
Sem ser exagerado
A hipérbole é minha terra
A paixão, meu arado

Me surpreendo, de repente,
Compondo versos rimados
Como quem respira sofregamente
A alma do inusitado

Eu escrevo como quem vive
Eu vivo como quem morre


(Desejo a todos os amigos do Poesia Residual um feliz 2005 e peço que mandem seus melhores pensamentos a Luiz Otávio Lopes, amigo de infância e irmão de alma e poesia que sofreu um derrame neste Natal. Que sejamos também solidários ao povo asiático, que não merecia a tragédia que está vivendo neste momento.)